Na língua Kikongo, o termo Mukua-Mwenho (ou Emukua-mwenho) carrega um significado poético e profundo. Ele se divide em:
- Mukua: Aquele que possui, que é dono de, que pertence a.
- Mwenho (ou Muenho): A alma, a vida, o sopro vital, a essência espiritual.
Portanto, os Mukua-Mwenho são “Os Senhores da Vida”, aqueles que possuem a essência da continuidade. Eles são os nossos ancestrais. E dentro da nossa cosmologia Banto, eles não são divididos apenas por laços de sangue genético, mas por três grandes categorias de pertencimento:
| Categoria | Quem são no Invisível |
| Ancestrais de Sangue (Linhagem) | Seus pais, avós, bisavós; a árvore genealógica física que permitiu que o seu corpo físico nascesse na Terra. Você carrega a memória biológica deles. |
| Ancestrais de Chão (Históricos) | Os homens e mulheres que fundaram e trouxeram os primeiros fundamentos espirituais de Angolaao Brasil. Os antigos Tatas e Mametus que resistiram à chibata e preservaram o Kimbundu e o Kikongo. |
| Ancestrais de Corrente (Mukuixi / Nfumbe) | Os espíritos que trabalham na nossa doutrina, os Caboclos, Pretos Velhos e Pambunjilas/Exus, que já viveram na matéria, desencarnaram e hoje retornam como guias para nos orientar. |
Por que os cultuamos? (O Princípio da Continuidade)
Como historiadora, recordo a frase que resume a filosofia africana: “Nós somos porque eles foram”. O homem ocidental sofre de amnésia histórica e orgulho individualista; ele acredita que venceu na vida sozinho. O homem Banto sabe que ele é apenas a ponta de uma flecha que foi lançada há séculos.
Cultuamos os Mukua-Mwenho por três razões fundamentais:
- A Alimentação da Corrente: No Angola, o morto não desaparece; ele muda de plano. O ancestral continua vivo na nossa memória e na nossa vibração. Quando rezamos para eles, quando derramamos água fresca (Maza) no chão e oferecemos o alimento na esteira, estamos fortalecendo o laço que nos une. Se nós os alimentamos com a nossa reza, eles nos alimentam com a sua Nguzu (força) e proteção.
O Resgate do Caráter: Olhar para o ancestral é um exercício de humildade. Significa reconhecer que os problemas que enfrentamos hoje — sejam dificuldades materiais, físicas ou desestruturações que nós mesmos construímos — já foram enfrentados e vencidos por eles com muito menos recursos. O culto ao ancestral nos obriga a sair da postura de “melindre” e nos convoca a lutar de verdade pelo que queremos, honrando o nome que carregamos.
O Mukua-Mwenho (O Espírito Humano)
O ancestral (seja o Caboclo, o Preto Velho ou o Nfumbe da casa) já teve uma experiência encarnada. Ele já sentiu frio, fome, dor, já errou, já acertou e já reencarnou sob as diretrizes da Justiça Divina. Por terem sido humanos, eles possuem uma proximidade fluídica muito maior com as nossas dores diárias. Eles se manifestam no terreiro para falar, aconselhar, dar passes, receitar banhos de folhas (Nsaba) e nos ajudar na reestruturação da nossa vida material e moral. Eles conhecem o peso de ser homem.
Eles não venceram os cativeiros da história chorando por melindres; eles venceram trabalhando, guardando o silêncio do fundamento e agindo com caráter e união (Ubuntu).
Tudo a seu tempo. Se é hora de reconstruir , que a base dessa reconstrução seja a honra àqueles que pavimentaram a estrada para nós. Limpem seus pensamentos, firmem seus passos a e busquem a força dos antigos. Quando vocês se tornarem o orgulho dos seus ancestrais, a estrada de vocês nunca mais será trancada.Kiuá os Mukua-Mwenho! Kiuá a Ancestralidade de Angola!
