- Como Sacerdote da tradição Kongo-Angola e historiadora, com o corpo atravessado pela ancestralidade e pelos números da realidade brasileira. Preciso falar que o “Candomblé é das mulheres”. Não é um slogan moderno; é uma verdade histórica e espiritual que sustenta os pilares das nossas comunidades desde que o primeiro navio tocou este solo.
A Matriarcalidade como Alicerce de Resistência
Nas nações de Angola e Kongo, o conceito de nzila (caminho) sempre foi pavimentado pela força feminina. Historicamente, os terreiros foram os primeiros espaços de liberdade real no Brasil Colônia e Império. Enquanto o Estado nos via como mercadoria e a Igreja nos via como pecado, a Mam’etu ou a Iyá nos via como seres divinos.
O terreiro é, por definição, um território de aquilombamento. Nele, a hierarquia não se baseia no patriarcado opressor, mas na senioridade e no axé. Para a mulher negra, em particular, o Candomblé foi o lugar onde ela deixou de ser a “mão de obra” para se tornar a Rainha, a Zeladora, a Dona do Próprio Destino.
O Terreiro como Rede de Proteção
Hoje, nossa função política e social é mais urgente do que nunca. O terreiro precisa ser o primeiro porto seguro para a mulher que sofre violência. Nossa resistência se manifesta em três frentes:
- O Amparo Espiritual: Onde a autoestima da mulher, estraçalhada pelo racismo e pelo machismo, é reconstruída através do espelho das Deusas e Inquices. Ao olhar para Nzumbá ou Kaya, a mulher se reconhece poderosa e digna.
- O Acolhimento Social: Historicamente, as comunidades de terreiro funcionam como redes de apoio mútuo — o “cuidar dos filhos umas das outras” e o compartilhamento do alimento.
- A Incidência Política: Como historiadora, reitero: não há separação entre o sagrado e o político. Proteger uma filha de santo contra a violência doméstica é um ato de culto aos ancestrais. Proteger contra os abusos de “ditos zeladores” é suplica e socorro que o sagrado nos pede urgência.
O Protagonismo Feminino na Tradição
No Candomblé, a mulher é o centro da cosmologia. Ela é quem detém o segredo das folhas, o mistério do nascimento e a gestão da comunidade. Quando dizemos que o Candomblé é das mulheres, reconhecemos que foram as Ganhadeiras, as **Mães de Santo e as Equedes que compraram alforrias e mantiveram vivas as línguas banto e iorubá quando tudo parecia perdido.
“O terreiro é o ventre do mundo. E do ventre, nasce a vida e a liberdade.”
Nossa Missão Atual
Precisamos fortalecer nossos terreiros como Zonas Livres de Violência. Isso significa:
- Não tolerar o abuso dentro de nossas casas.
- Educar nossos filhos homens sob a ética do respeito absoluto ao feminino.
- Denunciar o feminicídio e o racismo religioso que, frequentemente, caminham de mãos dadas.
Nossa fé é nossa política. Que os Inquices nos deem a firmeza do ferro de Nkosi e a sabedoria das águas de Ndanda Lunda para continuarmos sendo o escudo e a espada das nossas mulheres.
Pelo direito de existir, de crer e de liderar.
Kiwa! Mukuiu!