Ninguém abre casa lendo Pierre Verger. Ninguém aprende fundamento observando as pinturas do Carybé. Ninguem reza um encantado lendo whatszapp. Ninguém raspa um yao seguindo instruções da internet . Ninguém tira ebó com listas do Google . Livro nenhum vai ter a mesma força de yawo/abiã quando senta para aprender com as palavras dos mais velhos. Nenhum ebó tem mais resultado do que aquele que você já passou e já ajudou seu zelador a fazer . Nosso livro sagrado é a oralidade e isso é o que temos de mais preciso. A teoria é linda, porém nossas praticas são insubstituíveis. Candomblé se faz no terreiro, não na internet.
Dentro do Candomblé, para quem não sabe, vivemos num sistema de regras, chamado de Humbe (educação de axé, pra facilitar), que inclui a hierarquia. Nesse contexto existem muitas regras de comportamento, onde o mais importante é o respeito. Conseguimos viver dentro dos Templos, costumes esquecidos na vida social atual. Esses costumes priorizam os idosos e as crianças, as grávidas e os debilitados. Introduzimos conceitos em nossos Templos, que são raros no mundo aqui fora, atualmente. A gente cala quando o mais velho fala. A gente não responde aos mais velhos. A gente pede a bênção aos mais velhos. A gente espera os mais velhos e as crianças para comer e eles tem prioridade. A gente cuida um do outro, como uma família. A gente não faz distinção de pessoas. A gente ganha um monte de mães e um monte de pais dentro do Templo. A gente entende que se um está em dificuldades, ninguém está bem, porque “Ajò” quer dizer união e não tem Axé se não tiver ajò. Nossos Sacerdotes nos ensinam a ter responsabilidade com detalhes que para muitos passavam desapercebidos. O Candomblé é quase uma utopia. Mas não chega a ser, porque todos lutam para cumprir as regras e um apoia o outro que ainda não atingiu ou entendeu o objetivo. O Sacerdote, é quem ouve nossas lamúrias, guarda nossos maiores segredos e nos indica o melhor caminho, quando temos dúvidas. É normalmente um dos primeiros a conhecer nossas vitórias e na maioria das vezes, o primeiro a saber da derrota. É também a pessoa que briga quando erramos, puxa nossas orelhas, mas não solta a gente no mundo por causa disso. É para isso também, o Sacerdote. Tem muito Pai e muita Mãe carnal, que faz queixa dos filhos para os sacerdotes deles, sabia? O Sacerdote também vira apoio para a família, na luta pra endireitar o torto. Vida de sacerdote é isso. A gente ganha um filho de santo, que trás na bagagem uma vida inteirinha para a gente cuidar, tipo um Kinder ovo… rs rs
A gente acaba amando cada um deles e alguns nos amam também.
Espiritualidade é saber se manter consciente dentro da própria humanidade, com emoções, limites e lucidez. . No fundamento a gente aprende que silêncio não é fraqueza, é escolha. E que equilíbrio não nasce do apagamento, mas do entendimento de si. . LEMBA nos ensina que não existe luz verdadeira onde não existe verdade interna. O Sagrado não pede que sejamos perfeitos, pede que sejamos honestos com o que sentimos e responsáveis com o que fazemos com isso. . O erro de muitos, está em achar que evoluir é se encaixar na expectativa alheia. Quando, na real, evoluir é voltar para o próprio eixo e caminhar firme nele !! . KALA EPI LEMBÁ 🤍
Mito não é apenas uma mentira. Às vezes é uma meia-verdade, uma ideia distorcida, ou um eco de preconceitos antigos. No caso do Candomblé, os mitos que cercam a religião são frutos da intolerância, do racismo e da ignorância. Este texto é um convite para romper esse ciclo, com respeito, escuta e informação.
Mito 1: “Candomblé é coisa do demônio”
Esse é o mito mais violento e persistente. O conceito de demônio é exclusivo das tradições judaico-cristãs e não existe no Candomblé nem na cosmologia iorubá.
Chamar uma religião ancestral de “coisa do demônio” é ato de intolerância e desinformação.
Mito 2: “Orixás são santos católicos”
Essa confusão nasceu do sincretismo religioso. Os africanos escravizados foram forçados a esconder seus cultos e associaram orixás a santos católicos como forma de resistência. Oxum foi associada a Nossa Senhora Aparecida. Ogum a São Jorge. Mas orixá não é santo. Orixá é natureza viva, é energia ancestral. A semelhança é estratégica, não teológica.
Mito 3: “Todos no Candomblé incorporam”
A incorporação é uma das formas de manifestação dos orixás, mas nem todos os filhos de santo incorporam. A religião tem muitos papéis e funções:
Ogãs: tocam os atabaques, não incorporam
Equedes: cuidam dos orixás e dos filhos em transe
Abiãs: iniciantes, em preparação espiritual
A incorporação é importante, mas o axé está presente em cada função.
Mito 4: “Precisa abandonar outras crenças para entrar no Candomblé”
Não. O Candomblé não impõe rupturas, mas propõe entrega e compromisso. Muitos filhos de santo passaram por outras religiões antes. Cada caminhada é única.
A religião não exige abandono, exige verdade.
Mito 5: “Candomblé é só para pessoas negras”
O Candomblé é uma religião de matriz africana, mas é aberta a todas as pessoas. O que importa é o respeito, a entrega e a vontade de seguir o caminho dos orixás com verdade. No terreiro, o axé não escolhe cor: escolhe intenção.
Mito 6: “Candomblé e Umbanda são a mesma coisa”
São religiões irmãs, mas diferentes:
A Umbanda mistura espiritismo, catolicismo e elementos afro-brasileiros.
O Candomblé é tradicional, com liturgia africana, iniciações e ritos fechados.
Ambas merecem respeito. Mas confundi-las é ignorar suas particularidades.
Mito 7: “O Candomblé é atrasado ou primitivo”
Essa é uma das formas mais veladas de racismo. O Candomblé tem saberes milenares sobre:
Fitoterapia
Psicologia ancestral
Comunidade
Cosmologia
Ritmo e cura
Não há nada de “primitivo” em uma religião que resistiu por mais de 500 anos com sabedoria, organização e axé.Desmistificar não é debochar. É educar com empatia. É abrir espaço para o diálogo, para a escuta, para o entendimento entre fés e culturas.
Falar do Candomblé com verdade é proteger o que é sagrado. É garantir que as próximas gerações possam conhecer a religião sem medo, sem vergonha, sem mentira.
O conhecimento é ferramenta de liberdade. E a liberdade é fundamento de toda religião que respeita a vida.
O Preceito não é apenas um conjunto de regras, é o próprio fio condutor do nosso Axé. Ele é a disciplina que o filho assume com seu Nkisi (Divindade) e com a Lei do Kilombo (Terreiro). Viver o Preceito é caminhar na Honra; quebrá-lo é atrair a desordem.
O Preceito se manifesta em três dimensões essenciais:
1. Preceito é Lei e Contrato (Kuakama)
No momento da Iniciação (AmbianMuzenza), o filho sela um pacto sagrado com seu Nkisi e com a linhagem de sua Casa. O Preceito é a cláusula de manutenção desse pacto.
Disciplina do Axé: O Preceito, seja ele o uso do branco, o jejum de certas comidas, o resguardo sexual ou o silêncio, cria um campo de força puro em torno do iniciado ou noviço. É como um escudo que só aceita a energia do sagrado.
Conexão com o Nkisi: A disciplina física (resguardo, alimentação) e a disciplina mental (silêncio, oração) elevam a vibração do filho. Essa elevação permite que o Axé do Nkisi flua e se mantenha vivo em sua cabeça (Ori). O Preceito é o alimento do seu Orixá.
Hierarquia e Respeito: A saudação, o pedido de bênção (bater cabeça) e o ato de obedecer a uma ordem do Tata/Mametu Nkisi são preceitos que garantem a harmonia da comunidade e mantêm a hierarquia (Lei e Ordem) viva.
2. Preceito é Zelo pela Matéria (Muenhu)
O Preceito ensina que o corpo do iniciado é um Templo.
Zelo pela Cabeça (Ori): A cabeça é o local de assentamento do Nkisi. O Preceito, sobretudo após obrigações, exige que o filho evite excessos, álcool e ambientes de energia densa (aglomerações, bares) para que o Ori não seja “sujo” e o Nkisi possa se manifestar com clareza.
Cura e Equilíbrio: As restrições alimentares (Quizilas) protegem o corpo físico de substâncias que, ritualisticamente, desequilibram o temperamento do Nkisi. Por exemplo, a quizila de pimenta para um filho de Lembá (Oxalá) é uma proteção contra a raiva e a impaciência.
O Perigo da Quebra do Preceito: O Nzumbi
A quebra do Preceito não é apenas uma “falha”; é uma ruptura energética que atrai o Nzumbi (energia desordenada) e coloca o filho em grave risco espiritual.
As Consequências Espirituais e Materiais:
Enfraquecimento do Nkisi: O mais grave de tudo. A quebra do Preceito diminui a Força (Axé) do Nkisi na cabeça do filho. É como cortar a energia de uma casa. O Nkisi não tem força para proteger ou agir em sua vida.
Abertura para o Egum (Kiumba): O rompimento do campo de força puro deixa o filho vulnerável à atração de Kiumbas (espíritos obsessores desordenados) e de energias de demandas (feitiçarias). A proteção cai e o corpo se torna um alvo.
Desordem da Vida: A desordem espiritual se manifesta na matéria. O filho quebra o Preceito atrai o desequilíbrio em seu caminho: doença, problemas financeiros, brigas, acidentes e estagnação (o “caminho fechado”).
Desgaste Sacerdotal: A falta de Preceito exige que o Tata/Mametu Nkisi e a própria Casa usem suas energias e seus fundamentos para tentar refazer o que foi quebrado. Isso é um desgaste para o Kilombo inteiro.
A Lei da Responsabilidade
Meus filhos, se o Preceito for quebrado por ignorância, há o caminho da retificação e da limpeza. Mas se for quebrado por arrogância, desrespeito e negligência, a Lei de Nkosi (Ogum/Justiça) atuará de forma severa.
Portanto, vivam seus Preceitos com a máxima seriedade. Eles são o caminho da preservação do axé de sua vida material e espiritual. A disciplina é o maior ato de amor que vocês podem oferecer à sua Divindade.
Falar sobre o sacerdócio na Nação Kongo Angola é falar sobre a Lei de Nkosi (Ogum) misturada ao Amor de Dandalunda (Oxum). Ser Tata Nkisi (Pai de Santo) ou Mametu Nkisi (Mãe de Santo) não é um título, mas uma função vitalícia, uma missão de serviço e sacrifício.
A Lei de Nkosi exige disciplina, corte e justiça. O sacerdote enfrenta desafios que testam sua força e sua fé constantemente:
A Solidão da Liderança: O sacerdote é o pilar da casa. É o único que não tem a quem recorrer quando as forças externas atacam o Kilombo. A dor e a fraqueza precisam ser guardadas, a comunidade precisa do sacerdote firme e nele a força de Nzambi.
A Luta Contra a Vaidade e a Queda Moral: O poder espiritual é uma tentação constante. O desafio é não se deixar levar pela soberba ou pela ganância. O Tata/Mametu deve ser o primeiro a respeitar as Quizilas e a Lei, pois seu erro não afeta apenas a si, mas a toda a sua egrégora.
A Intolerância e o Preconceito: Liderar uma casa de Candomblé em nossa sociedade é estar na linha de frente da guerra contra o racismo religioso. É ser alvo de calúnias, ataques e agressões. O sacerdote deve ser o guerreiro incansável que protege o Axé e o corpo de seus filhos.
II. Os Cuidados Essenciais do Sacerdote (A Disciplina)
Disciplina,Disciplina,Disciplina
Disciplina Ritual (Obrigações): Nunca negligenciar as obrigações pessoais e as rezas da casa. A manutenção do Assentamento Pessoal é o que sustenta o Axé do líder.
Limpeza Constante: Realizar banhos de descarrego e de energização com mais frequência do que os filhos, pois o sacerdote absorve muitas energias da comunidade.
Humildade e Ouvido: Saber que não se sabe tudo. Buscar o conselho de sacerdotes mais velhos e, principalmente, saber ouvir os filhos. O Axé vem de todos, não apenas do topo.
Ética e Justiça: Ser justo e imparcial. Um sacerdote é o representante de Nzambi (Deus) na Terra; sua palavra é Lei e não pode ser manchada pela parcialidade ou interesse pessoal.
O Amor na Religião: A Doçura de Dandalunda
Se Nkosi impõe a Lei, Dandalunda (Oxum) nos oferece a recompensa e o prazer da jornada.
O Prazer em Ensinar o Correto
O maior Axé e a maior satisfação do sacerdote reside em:
Ver o Crescimento do Filho: Não há alegria maior do que ver um Muzenza (iniciado) que chegou quebrado, perdido e sem rumo, florescer em um filho consciente, forte e de caráter. O sacerdote é o jardineiro que cultiva a alma.
Manter a Tradição Viva: O prazer de transmitir o Kutala (o conhecimento) correto, a Milonga exata e o fundamento ancestral é garantir que a nossa Nação não morrerá. Ensinar é perpetuar o Axé.
O Amor de Dandalunda no Sacerdócio
Dandalunda rege o amor, a doçura e a prosperidade. No sacerdócio, ela se manifesta como:
Acolhimento e Afeição: A capacidade de acolher o filho com carinho, de ser o ombro amigo e a mãe/pai que o mundo lá fora lhe negou. O colo do Tata/Mametu é o colo de Dandalunda.
Prosperidade do Axé: O sacerdócio atrai a prosperidade não apenas material, mas a prosperidade de espírito. A casa se enche de risadas, de alegria e de vida.
O Reflexo da Beleza: O sacerdote deve refletir a beleza de Dandalunda: a beleza da alma, da paciência e da sabedoria. Ele deve ser a fonte de água doce que acalma a sede e nutre o coração dos filhos.
Servir é difícil, mas é a única forma de atingir a verdadeira grandeza espiritual. É na dor do serviço que encontramos o profundo e doce Axé de Dandalunda.
A estrutura hierárquica no Candomblé Angola não é uma questão de poder ou dominação, mas de organização, respeito e preservação dos fundamentos. É o modo como o axé é distribuído, o conhecimento é transmitido e a ordem é mantida para o bem-estar de todos.
As kotas e makotas de nossa casa estao em preparo,falta um longo caminho , mas ja sao capazes de grandes feitos e muito apoio .
A Kota é a zeladora da ordem e harmonia dentro do ilê. É responsável por manter a ordem do dia a dia, a disciplina e a limpeza do ile(o espaço físico e energético).
É a principal responsável por ensinar os preceitos, as regras de conduta, os horários e o comportamento ritualístico aos iniciados (muzenzas). Na ausência de uma Mametu de Taverna,ou kota rifula (cozinheira ritual), a Kota supervisiona ou executa o preparo das comidas sagradas (Mpemba) e das obrigações, garantindo que o alimento seja oferecido no fundamento correto.
Auxilia o sacerdote principal em todas as fases da iniciação, desde a reclusão (roncó) até a preparação das roupas e dos banhos.
A Makota é uma figura sagrada de profunda importância, cujo cargo é de não-incorporação. Ela é uma zeladora nata, um pilar de equilíbrio e vigilância na hora do transe.
Sua função principal é zelar pelos Nkisi e Guias quando estão manifestados nos corpos dos muzenzas. Ela garante a segurança física da Entidade (evitando quedas, tropeços) e protege o médium. Durante a Gira, a Makota observa o ambiente e os médiuns, identificando o início de um transe, uma energia desordenada ou a presença de eguns (espíritos desordenados). Ela age como um “filtro”.Por não entrar em transe, ela memoriza as ordens e os recados dados pelos Nkisi manifestados para repassá-los a /Mametu Nkisi ou ao Kambondo . Ambas, Kota e Makota, representam a força do Feminino Sagrado em nosso culto. A Kota provê a ordem da casa (o conhecimento prático e o acolhimento maternal), e a Makota provê a ordem do transe (a vigilância e o zelo pelo Axé dos deuses). Juntas, elas garantem que o Kilombo funcione em perfeita harmonia e segurança.
O Chamado e a Missão de Kota/Makota
O termo Kota e Makota designa uma das funções mais respeitadas e importantes na hierarquia do Candomblé Angola. Não é apenas um título, mas uma vocação e uma missão espiritual de grande responsabilidade.
Vocações Distintas: Enquanto o Tata ou Nengua Nkisi (pai ou mãe de santo) são os chefes da casa, os Kotas e Makotas são os alicerces da comunidade. Eles são os “ministros”, os conselheiros, os guardiões dos rituais, os que auxiliam o Tata/Nengua na condução do kilombo. Sua vocação é de serviço, de apoio e de preservação da fé.
Guardiões dos Fundamentos: Os Kotas e Makotas são geralmente pessoas com muitos anos de iniciação e que cumpriram diversas obrigações. Eles detêm um profundo conhecimento dos fundamentos, dos cânticos, das rezas e dos rituais. São eles que auxiliam diretamente nas feitura de santo, na preparação dos iniciados e na manutenção da ordem litúrgica.
Sabedoria e Experiência: A missão de Kota/Makota exige sabedoria, paciência e experiência de vida. Eles são os ouvidos atentos, os conselheiros espirituais, aqueles que acalmam os ânimos e que ajudam a resolver os desafios do dia a dia do kilombo, sempre com base nos ensinamentos dos Nkisi e dos ancestrais.
Apoio ao Tata/Nengua Nkisi: A relação entre o Tata/Nengua e os Kotas/Makotas é de mútua confiança e respeito. Eles são o braço direito do líder da casa, os que garantem que as diretrizes sejam seguidas e que o axé da casa esteja sempre em ordem. É um trabalho de parceria e dedicação incondicional.
Embora andem de mãos dadas, eles representam diferentes aspectos da supervalorização do eu e se manifestam de maneiras distintas no nosso convívio social e desenvolvimento moral.
O Orgulho (do grego hybris, muitas vezes associado à soberba excessiva) é, na filosofia moral e em muitas doutrinas espirituais, a raiz de todas as imperfeições. Ele é a supervalorização da própria estima e da própria vontade.
Ação no individuo:
Causa o isolamento e a inflexibilidade. O indivíduo orgulhoso não aceita ser contrariado, é incapaz de pedir perdão e vive em constante estado de defesa.
Gera a injustiça, pois o orgulhoso só reconhece o mérito em si mesmo e sente prazer em diminuir o valor do próximo.
Resulta na arrogância e na incapacidade de aprender com os mais humildes ou de ouvir a sabedoria alheia.
O Orgulho é a fonte da discórdia. Ele transforma as diferenças de opinião em conflitos de poder, pois a verdade deve residir apenas no eu orgulhoso.
Na moral/ética : O Orgulho é o que impede o progresso. Se eu me considero perfeito, não há necessidade de mudança. Ele é o obstáculo à virtude da humildade.
O Orgulho é um vício interno e estrutural que corrompe o julgamento e a relação do indivíduo com o conhecimento e a verdade.
A Vaidade (do latim vanitas, que significa vazio, futilidade) é o aspecto prático e superficial do Orgulho. Enquanto o Orgulho é o sentimento, a Vaidade é a busca incessante por reconhecimento externo que alimenta esse sentimento.
Ação no individuo:
A Vaidade é o apego à aparência e à opinião alheia. É a necessidade patológica de ser notado, elogiado e admirado. Causa a instabilidade emocional. A felicidade do vaidoso depende inteiramente do aplauso social. Na ausência de elogios, ele se sente diminuído.
Moral/Ética : A Vaidade é a busca por glória e notoriedade em vez de virtude. O vaidoso faz o bem não pela bondade em si, mas pela expectativa de louvor que a ação irá gerar. Gera a ostentação e a dissimulação. O indivíduo simula virtudes que não possui para manter a imagem social que tanto preza.
Estética: A Vaidade se manifesta na supervalorização do efêmero (beleza física, riqueza, títulos). O vaidoso confunde o valor intrínseco de sua alma com o brilho superficial de seus bens. Resulta na futilidade e na perda de tempo com o que é passageiro, negligenciando o cultivo do conhecimento e do espírito.
A Vaidade é um vício externo e comportamental que torna o indivíduo dependente da aprovação social, esvaziando suas ações de valor genuíno.
Em termos de desenvolvimento moral, combater o Orgulho é o trabalho mais difícil e fundamental. Ao se combater o Orgulho (raiz), a Vaidade (fruto) tende a murchar. A única virtude que aniquila ambos é a Humildade, que nos ensina a justa medida: reconhecer nosso valor sem ignorar nossas falhas e aceitar que somos apenas uma parte da vasta tapeçaria da existência.
Embora frequentemente usadas como sinônimos, a filosofia e a sociologia nos mostram que há uma diferença crucial entre elas, e entender essa distinção é vital para o nosso desenvolvimento espiritual e moral.
A Religião pode ser definida como o conjunto estruturado e institucionalizado de crenças, ritos, dogmas e práticas que unem uma comunidade em torno de um Deus ou de uma força transcendente. A Religião é a forma que a fé adota; é a liturgia e a instituição. Ela nos dá o mapa e o idioma para falar sobre o divino.
A Religiosidade, por outro lado, é a experiência individual, subjetiva e profunda da conexão com o sagrado ou com o transcendente. É o sentimento de reverência, de mistério e de busca por significado. É o aspecto íntimo da fé. Não depende de templos ou sacerdotes, mas da sinceridade do coração. É a sua oração silenciosa, sua meditação na natureza ou seu momento de reflexão. Uma pessoa pode ser profundamente religiosa (ter uma conexão intensa com o divino) sem pertencer a nenhuma Religião organizada. A Religiosidade é a essência da fé; é a chama interna que nos impulsiona à transcendência. A grande lição filosófica reside em integrar as duas. Não se trata de escolher uma ou outra, mas de reconhecer o papel de cada uma em nossa existência:
Cultuar a Ética (A Prática da Religiosidade): O que mais precisamos cultivar é o ethos (o caráter). Cultuar não o templo, mas a virtude. Isso significa praticar diariamente o amor ao próximo, a compaixão e a justiça em nossas ações. A verdadeira religiosidade se manifesta na forma como tratamos o outro, especialmente o mais vulnerável.
Cultuar a Conexão (A Essência da Fé): Precisamos cultuar o sentido. Isso envolve reservar tempo para o silêncio, para a reflexão e para a busca do significado. A conexão nos lembra que somos parte de algo maior e que nossa existência tem um propósito.
Cultuar o Respeito (A Função da Religião): Devemos respeitar as estruturas que nos unem. A Religião, com sua estrutura coletiva, oferece o senso de comunidade, apoio mútuo e a transmissão de sabedorias milenares. Ao cultuarmos a nossa fé, honramos a tradição que nos foi legada.
Em suma, a Religião nos dá a disciplina para adorar; a Religiosidade nos dá o sentido para existir. O que nos salva e nos eleva não é a placa na porta do templo, mas a qualidade da nossa alma.
Cultive a sua Religiosidade dentro da Religião que lhe faz bem, mas jamais se esqueça de que o maior altar é a sua própria consciência.
A feitura de santo é um processo de morte e renascimento. É a promessa de que o Nkisi irá guiar, proteger e dar força ao iniciado, e de que o iniciado irá honrar, respeitar e servir ao seu Nkisi. No entanto, o caminho após a feitura é repleto de desafios que testam a força e a determinação de cada um.
1. O Desafio da Humildade e da Disciplina
Muitos iniciados entram na religião em busca de poder ou de soluções mágicas para seus problemas. A feitura de santo, porém, exige humildade e disciplina. A vivência de terreiro não é um atalho para a vida, mas sim uma escola que nos ensina a ter paciência, a respeitar a hierarquia e a fazer o bem sem esperar recompensas. Aquele que não consegue se desvencilhar do ego, da vaidade e do orgulho, não consegue permanecer. A disciplina de realizar as obrigações, de seguir os preceitos e de se curvar aos mais velhos pode se tornar um fardo para quem busca apenas a glória.
2. O Desafio da Responsabilidade Espiritual
A feitura de santo não é um amuleto da sorte. Ela é uma responsabilidade. O Nkisi, os ancestrais e o terreiro passam a contar com o iniciado para cumprir suas obrigações, para honrar a sua palavra e para cuidar do seu axé (força vital). Aquele que não está pronto para assumir essa responsabilidade, que não tem maturidade espiritual para entender a seriedade do seu compromisso, acaba por se afastar, sentindo o peso da cobrança espiritual.
3. O Desafio da Intolerância e do Mundo Exterior
O mundo fora do terreiro muitas vezes é intolerante e cético em relação às religiões de matriz africana. Muitos iniciados, principalmente os mais jovens, sentem a pressão social, a discriminação e o preconceito de amigos, familiares e colegas de trabalho. Esse desafio externo pode ser avassalador, fazendo com que o iniciado se sinta envergonhado ou incompreendido, levando-o a se afastar da religião para evitar o conflito.
4. O Desafio da Falta de Conexão com o Nkisi
Em alguns casos, o iniciado pode sentir uma falta de conexão genuína com o seu Nkisi, com a linha de trabalho ou com o próprio terreiro. Essa falta de sintonia pode se manifestar de diversas formas, como a dificuldade de incorporar, a ausência de sinais espirituais ou a sensação de que algo está errado. Essa desconexão pode levar à frustração e ao desânimo, fazendo com que o iniciado se questione se ele realmente pertence àquele lugar.
5. O Desafio das Relações Humanas
No terreiro, somos todos seres humanos com defeitos e qualidades. Os conflitos, as fofocas, os ciúmes e as desavenças entre os irmãos de santo podem ser motivo de grande dor e frustração. Quando o iniciado não consegue diferenciar a falta humana da força espiritual, ele pode acabar se afastando da religião por conta de desentendimentos com outros membros da casa. O terreiro é um reflexo da vida, e a vivência em comunidade exige maturidade para lidar com as diferenças.
O Kukuana é uma cerimônia anual, realizada em homenagem a Kavungo e a todos os Nkisi da terra, mas com a participação de todo o panteão e da comunidade. Ele é o momento de “alimentar o corpo” com a força da terra, purificando o espírito e afastando as mazelas e as doenças que possam atingir a comunidade ao longo do ano.
A Preparação das Comidas Sagradas (Makuria): O ritual começa com a minuciosa preparação de uma série de comidas que são as favoritas de Kavungo e de outros Nkisi da terra. Entre elas, a mais simbólica é a pipoca, que representa a limpeza, a transmutação e a luz que surge da escuridão. Outros alimentos importantes são o milho branco e o feijão fradinho, cozidos e temperados de forma específica, para agradar e saudar os Nkisi da terra.
O Assentamento e a Reverência a Kavungo: O assentamento de Kavungo é preparado e reverenciado com as milongas e as oferendas devidas. O sacerdote faz as rezas necessárias para pedir a permissão e a presença do Nkisi para que o rito de partilha do alimento seja abençoado com sua força curadora. O assentamento é coberto com as palhas sagradas, e o axé de Kavungo é ativado para que possa atuar.
A Partilha do Alimento Sagrado: Esta é a parte central do Kukuana. As comidas são dispostas em esteiras no chão, e os filhos de santo e a comunidade se reúnem em uma atmosfera de respeito e humildade. A comida é compartilhada com a mão, em um ato de comunhão e igualdade. Não há pratos ou talheres; a partilha é direta, simbolizando que todos, diante da doença e da cura, são iguais. A pipoca, em especial, é espalhada para limpar os caminhos e o corpo de todos os presentes.
A Limpeza e o Descarrego Coletivo: Enquanto o alimento é consumido, a energia de Kavungo atua de forma intensa, promovendo uma limpeza espiritual profunda em todos. A partilha da comida é um “ebó” coletivo, que absorve as energias negativas e as transmuta. É comum que os médiuns manifestem as energias dos Nkisi da terra nesse momento, trazendo mensagens de cura, resiliência e força.
O Silêncio e a Meditação: O Kukuana é um rito de pouca música e muito silêncio. O foco está na ingestão da comida sagrada, na reflexão e na absorção da energia curadora de Kavungo. O silêncio é uma forma de introspecção e de respeito aos mistérios da terra, da vida e da morte.
Rezas e Cânticos (Milongas)
As rezas e os cânticos proferidos durante o Kukuana são específicos para Kavungo e para os Nkisi da terra. Elas servem para invocar a sua presença, louvar o seu poder e pedir sua misericórdia e sua capacidade de curar.