Politica Antirracista x Terreiros

Como guardiões de memórias ancestrais e arquitetos de resistências contemporâneas, os terreiros de Candomblé de matriz Kongo-Angola ocupam um lugar central na descolonização do pensamento e do afeto. Como Mametu é preciso falar sobre politica antiracista também nos terreiros. Diante disto os convido a reflexão:

O Terreiro como Quilombo de Memória e Resistência

O Candomblé, em especial as tradições que preservam as raízes Kongo-Angola, nunca foi apenas uma expressão de fé; foi, fundamentalmente, a tecnologia política que permitiu ao nosso povo sobreviver ao projeto de desumanização do colonialismo. Como **Sacerdote e Historiadora, compreendo que nossa prática litúrgica e nossa militância antirracista são fios da mesma corda.

1. A Espiritualidade como Ato Político

Para nós, o culto aos Inquices e aos nossos ancestrais é uma afirmação da vida contra o genocídio. Quando ocupamos o terreiro, estamos reivindicando o direito à humanidade que nos foi negada. A política antirracista dentro do Candomblé não é uma “pauta externa”, mas a própria essência do nosso existir. Cada folha colhida, cada toque de cabaça e cada palavra em Kimbundu ou Quimbundo é uma derrota para o apagamento histórico.

2. Descolonizar o Olhar sobre o Sagrado

Historicamente, fomos vítimas de uma narrativa que tentou demonizar nossas ervas e marginalizar nossos tambores. É papel dos terreiros hoje:

  • Reeducar a comunidade: Entender que o racismo religioso é o braço espiritual do racismo estrutural.
  • Valorizar a Ancestralidade: Resgatar as histórias de resistência das comunidades de matriz Banto que moldaram o Brasil.
  • Combater a Branquitude Normativa: Questionar por que, muitas vezes, as estéticas e saberes africanos ainda são vistos como “inferiores” ou “curiosidades folclóricas”.

3. O Compromisso com a Próxima Geração

Nossa missão é formar filhos de santo que sejam conscientes de sua história. Não basta saber a liturgia; é preciso entender que o terreiro é um espaço de acolhimento e emancipação. Ser uma liderança engajada é lutar para que nossa juventude preta entre nas roças de santo sem medo e saia para as ruas com o peito estufado, sabendo que sua herança é de reis, rainhas, engenheiros e sábios.

“Enquanto houver um toque de Ngoma, haverá uma voz que se recusa a silenciar. Nossa fé é nossa política, e nossa ancestralidade é nossa bússola.”

Nzambi iatese! (Que Deus nos abençoe!)

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