Kiuá Nzambi!
Ao completar 14 anos de feitura hoje 03/03/2026— a minha segunda obrigação de sete anos, o tempo de consolidação do meu Muenhu — olho para trás e vejo que cada lágrima derramada na esteira se transformou em pérola de sabedoria.
Como Mametu Nkisi, este é o meu grito de gratidão.
Agradeço, primeiramente, aos meus Ancestrais, os Bakulu. Foram vocês que me sustentaram quando o corpo fraquejou e que sopraram a intuição quando o caminho parecia escuro. Agradeço por terem me escolhido para carregar esta coroa, por permitirem que meu corpo fosse o cavalo e o templo das forças sagradas da nossa Nação Angola. Honrar o sangue que corre em minhas veias e o axé que recebi é o motivo da minha existência.
Sinto uma felicidade que as palavras não podem medir. A minha missão não é um fardo, é o meu maior privilégio. Ser o colo que acolhe, a mão que cura com a erva e a voz que transmite o fundamento é o que me faz sentir viva. Nesses 14 anos, aprendi que ser Mametu é morrer um pouco para si mesma todos os dias para que os filhos possam nascer e crescer.
Aos meus filhos de jornada — tanto os meus irmãos de axé, que dividiram comigo o calor do roncó, quanto os filhos que o Santo me deu para criar: minha gratidão eterna. Vocês são o meu espelho e a minha escola. Ver o crescimento de cada um de vocês e a firmeza com que seguram suas contas é a confirmação de que o meu plantio tem sido abençoado por Mutalambô.
Agradeço ao meu Nkisi, senhor da minha cabeça e dono do meu destino. Que eu possa continuar sendo um instrumento limpo de sua vontade, com o pé no chão da humildade e a cabeça voltada para as estrelas da sabedoria.
Que venham mais ciclos, que venham mais colheitas. Enquanto houver vento soprando e água correndo, haverá força para cumprir o meu destino dentro deste terreiro.
Kiuá Dandalunda! Kiuá toda a Nação Angola!
Ê, Nzambi a m’pungo, olha o tempo que passou! Quatorze anos de luta, Matamba me segurou. Kiuá Dandalunda! Kiuá Lembá! Minha raiz é antiga, ninguém pode derrubar.
Eu pisei no barro frio, sem saber pra onde ir, Lembá me deu o branco, me ensinou a insistir. Matamba soprou o vento, limpando meu caminhar, Se hoje eu sou rainha, foi por saber respeitar.
Tata Eme, Mama Eme, o segredo eu conheci, No silêncio do roncó, foi que eu renasci. Quatorze anos de folha, de reza e de obrigação, O Nkisi mora no peito, a força está na minha mão.
Nguzu ya matuiê (Força da minha cabeça), Nguzu ya moxima (Força do meu coração), Agradeço a cada dia, por essa consagração. Sou filha de Angola, sou fruto desse chão, Dandalunda é minha vida, minha paz e proteção.
“Eu lhe agradeço, meu Nkisi, não pelo que eu tenho, mas por quem eu me tornei. Agradeço por ter me mantido de pé nas tempestades e por ter sido o frescor nos meus dias de sol. Que venham mais ciclos de sete, com a mesma fé e o mesmo fundamento.”