Falar sobre o sacerdócio na Nação Kongo Angola é falar sobre a Lei de Nkosi (Ogum) misturada ao Amor de Dandalunda (Oxum). Ser Tata Nkisi (Pai de Santo) ou Mametu Nkisi (Mãe de Santo) não é um título, mas uma função vitalícia, uma missão de serviço e sacrifício.
A Lei de Nkosi exige disciplina, corte e justiça. O sacerdote enfrenta desafios que testam sua força e sua fé constantemente:
- A Solidão da Liderança: O sacerdote é o pilar da casa. É o único que não tem a quem recorrer quando as forças externas atacam o Kilombo. A dor e a fraqueza precisam ser guardadas, a comunidade precisa do sacerdote firme e nele a força de Nzambi.
- A Luta Contra a Vaidade e a Queda Moral: O poder espiritual é uma tentação constante. O desafio é não se deixar levar pela soberba ou pela ganância. O Tata/Mametu deve ser o primeiro a respeitar as Quizilas e a Lei, pois seu erro não afeta apenas a si, mas a toda a sua egrégora.
- A Intolerância e o Preconceito: Liderar uma casa de Candomblé em nossa sociedade é estar na linha de frente da guerra contra o racismo religioso. É ser alvo de calúnias, ataques e agressões. O sacerdote deve ser o guerreiro incansável que protege o Axé e o corpo de seus filhos.
II. Os Cuidados Essenciais do Sacerdote (A Disciplina)
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- Disciplina Ritual (Obrigações): Nunca negligenciar as obrigações pessoais e as rezas da casa. A manutenção do Assentamento Pessoal é o que sustenta o Axé do líder.
- Limpeza Constante: Realizar banhos de descarrego e de energização com mais frequência do que os filhos, pois o sacerdote absorve muitas energias da comunidade.
- Humildade e Ouvido: Saber que não se sabe tudo. Buscar o conselho de sacerdotes mais velhos e, principalmente, saber ouvir os filhos. O Axé vem de todos, não apenas do topo.
- Ética e Justiça: Ser justo e imparcial. Um sacerdote é o representante de Nzambi (Deus) na Terra; sua palavra é Lei e não pode ser manchada pela parcialidade ou interesse pessoal.
O Amor na Religião: A Doçura de Dandalunda
Se Nkosi impõe a Lei, Dandalunda (Oxum) nos oferece a recompensa e o prazer da jornada.
O Prazer em Ensinar o Correto
O maior Axé e a maior satisfação do sacerdote reside em:
- Ver o Crescimento do Filho: Não há alegria maior do que ver um Muzenza (iniciado) que chegou quebrado, perdido e sem rumo, florescer em um filho consciente, forte e de caráter. O sacerdote é o jardineiro que cultiva a alma.
- Manter a Tradição Viva: O prazer de transmitir o Kutala (o conhecimento) correto, a Milonga exata e o fundamento ancestral é garantir que a nossa Nação não morrerá. Ensinar é perpetuar o Axé.
O Amor de Dandalunda no Sacerdócio
Dandalunda rege o amor, a doçura e a prosperidade. No sacerdócio, ela se manifesta como:
- Acolhimento e Afeição: A capacidade de acolher o filho com carinho, de ser o ombro amigo e a mãe/pai que o mundo lá fora lhe negou. O colo do Tata/Mametu é o colo de Dandalunda.
- Prosperidade do Axé: O sacerdócio atrai a prosperidade não apenas material, mas a prosperidade de espírito. A casa se enche de risadas, de alegria e de vida.
- O Reflexo da Beleza: O sacerdote deve refletir a beleza de Dandalunda: a beleza da alma, da paciência e da sabedoria. Ele deve ser a fonte de água doce que acalma a sede e nutre o coração dos filhos.
Servir é difícil, mas é a única forma de atingir a verdadeira grandeza espiritual. É na dor do serviço que encontramos o profundo e doce Axé de Dandalunda.
Mametu monajimu – Aline Marques Dias