O Início da Jornada: Desafios Internos e Externos
A feitura de santo é um processo de morte e renascimento. É a promessa de que o Nkisi irá guiar, proteger e dar força ao iniciado, e de que o iniciado irá honrar, respeitar e servir ao seu Nkisi. No entanto, o caminho após a feitura é repleto de desafios que testam a força e a determinação de cada um.
1. O Desafio da Humildade e da Disciplina
Muitos iniciados entram na religião em busca de poder ou de soluções mágicas para seus problemas. A feitura de santo, porém, exige humildade e disciplina. A vivência de terreiro não é um atalho para a vida, mas sim uma escola que nos ensina a ter paciência, a respeitar a hierarquia e a fazer o bem sem esperar recompensas. Aquele que não consegue se desvencilhar do ego, da vaidade e do orgulho, não consegue permanecer. A disciplina de realizar as obrigações, de seguir os preceitos e de se curvar aos mais velhos pode se tornar um fardo para quem busca apenas a glória.
2. O Desafio da Responsabilidade Espiritual
A feitura de santo não é um amuleto da sorte. Ela é uma responsabilidade. O Nkisi, os ancestrais e o terreiro passam a contar com o iniciado para cumprir suas obrigações, para honrar a sua palavra e para cuidar do seu axé (força vital). Aquele que não está pronto para assumir essa responsabilidade, que não tem maturidade espiritual para entender a seriedade do seu compromisso, acaba por se afastar, sentindo o peso da cobrança espiritual.
3. O Desafio da Intolerância e do Mundo Exterior
O mundo fora do terreiro muitas vezes é intolerante e cético em relação às religiões de matriz africana. Muitos iniciados, principalmente os mais jovens, sentem a pressão social, a discriminação e o preconceito de amigos, familiares e colegas de trabalho. Esse desafio externo pode ser avassalador, fazendo com que o iniciado se sinta envergonhado ou incompreendido, levando-o a se afastar da religião para evitar o conflito.
4. O Desafio da Falta de Conexão com o Nkisi
Em alguns casos, o iniciado pode sentir uma falta de conexão genuína com o seu Nkisi, com a linha de trabalho ou com o próprio terreiro. Essa falta de sintonia pode se manifestar de diversas formas, como a dificuldade de incorporar, a ausência de sinais espirituais ou a sensação de que algo está errado. Essa desconexão pode levar à frustração e ao desânimo, fazendo com que o iniciado se questione se ele realmente pertence àquele lugar.
5. O Desafio das Relações Humanas
No terreiro, somos todos seres humanos com defeitos e qualidades. Os conflitos, as fofocas, os ciúmes e as desavenças entre os irmãos de santo podem ser motivo de grande dor e frustração. Quando o iniciado não consegue diferenciar a falta humana da força espiritual, ele pode acabar se afastando da religião por conta de desentendimentos com outros membros da casa. O terreiro é um reflexo da vida, e a vivência em comunidade exige maturidade para lidar com as diferenças.