A Essência das Ervas no Ilê: A Vida Pulsante do Axé

No terreiro, cada folha, cada raiz, cada flor é reconhecida como portadora de um poder específico, de uma vibração única que se alinha a um Nkisi ou a um propósito.

As ervas são consideradas os “cavalos” ou os “corpos” dos Nkisi no reino vegetal. Cada Nkisi tem suas ervas específicas, que carregam sua essência energética. Ao manuseá-las, macerá-las, cantá-las (milongas), estamos ativando a força do Nkisi que ali reside. É através das ervas que o axé divino é extraído e direcionado para fins específicos. Diariamente, o terreiro e seus membros precisam de limpeza energética. As ervas são a principal ferramenta para isso. Banhos de descarrego (mbenza ya ulongo), defumações (kusasula), e a limpeza de ambientes com o sumo das folhas afastam energias negativas, miasmas e quebram demandas. Elas restabelecem o equilíbrio e preparam o corpo e o espírito para receber energias positivas.

Para cada enfermidade física, espiritual ou emocional, há uma combinação de ervas que, preparadas como chás, compressas (kufungama), ou banhos, trazem a cura. Elas restauram o muenhu (vida) e o equilíbrio energético do indivíduo.

Para atrair boas energias, prosperidade, amor e oportunidades, utilizamos ervas com vibrações específicas. Banhos para abrir caminhos, infusões para o comércio, defumações para atrair abundância – tudo isso é feito com a inteligência e o poder das ervas que ressoam com a fartura e a boa sorte. Muitas ervas também são associadas aos ancestrais e são usadas em rituais de reverência e comunicação com os que já partiram, mantendo o elo entre o presente e o passado. A presença e o uso contínuo das ervas no tereiro são uma forma de aprendizado constante para os iniciados (ndumbis). Eles aprendem a identificar as ervas, suas funções, como manuseá-las, as milongas correspondentes e a importância de zelar por elas. É um conhecimento transmitido oralmente e vivenciado, parte essencial da formação sacerdotal.

O Zelador e a Horta do Terreiro: Um Elo Sagrado

Para o sacerdote Kongo Angola, a horta do terreiro (ou o cuidado com as ervas em si) é um local de profundo respeito e trabalho. Muitas vezes, o próprio zelador cultiva suas ervas, cuidando delas como se cuida dos próprios filhos, pois sabe que delas depende a vida do kilombo. O ato de colher as ervas, pedir licença à natureza, conversar com a planta, é um ritual em si que reforça a conexão com a energia vital.

Em verdade digo que as ervas são a linguagem primordial dos Nkisi, o elo entre o divino e o terreno. Elas sustentam o axé do terreiro, purificam, curam, protegem e abrem caminhos. São a prova viva de que a natureza é a manifestação de Nzambi, e que em cada folha reside um pedaço do poder e da sabedoria do universo. Sem elas, o terreiro perderia sua força e sua essência.

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