Nkosi: O Guerreiro da Ordem e o Guardião da Linhagem

Como sacerdote de Candomblé Kongo-Angola, é uma honra e um dever falar sobre a relação profunda e vital de Nkosi com a ancestralidade em nossa Nação. Em nossa cosmogonia, os Bakulu (ancestrais) são o elo entre o passado, o presente e o futuro, e os Nkisi são as forças divinas que regem o universo e a vida. A conexão entre Nkosi e os Bakulu é um dos pilares que sustenta nossa existência e nossa fé.

Nkosi, o Nkisi do ferro,é uma força primordial em nossa vida. Ele não é apenas um guerreiro que abre e defende; ele é também um arquiteto da civilização, o que forja as ferramentas, o que desbrava a mata para o sustento. E é nessa sua função de organizador e protetor da ordem que sua ligação com a ancestralidade se manifesta de forma tão potente.

A Ferramenta do Progresso na Tradição: Os Bakulu nos ensinaram a progredir, a caçar, a cultivar, a construir. Nkosi, como o senhor das ferramentas e do progresso, representa essa capacidade de inovar e de forjar um futuro a partir da base sólida do passado. Ele nos dá a capacidade de transformar os ensinamentos ancestrais em ações concretas que beneficiam nossa vida e nossa comunidade.

Abertura dos Caminhos Ancestrais: Nkosi é o senhor dos caminhos. Nossos Bakulu trilharam caminhos antes de nós, e Nkosi é quem assegura que esses caminhos estejam abertos e seguros para que a energia e a sabedoria ancestral possam fluir até nós. Ele desfaz os obstáculos que impedem essa conexão, sejam eles espirituais ou materiais. Ao cultuarmos Nkosi, estamos pedindo que ele “limpe a estrada” para que a memória e a influência dos que vieram antes possam nos alcançar.

Guardião da Linhagem e do Sangue: O ferro, domínio de Nkosi, é o metal que dá estrutura, firmeza e resistência. A ancestralidade é a nossa estrutura, a base de quem somos. Nkosi, ao reger o ferro e o sangue (o “sangue que corre em nossas veias”), simboliza a continuidade da linhagem, a força genética e espiritual que nos conecta aos nossos antepassados. Ele protege essa linhagem, garantindo sua perpetuação e a saúde dos seus descendentes. Em rituais de consagração e manutenção da vida, é a força de Nkosi que firma a energia vital no sangue, que por sua vez, é o veículo da ancestralidade.

Força para Enfrentar o Passado: Muitas vezes, a ancestralidade carrega consigo não apenas bençãos, mas também débitos, traumas e desequilíbrios de gerações passadas. Nkosi, como o guerreiro, nos dá a força, a coragem e a capacidade de enfrentar e superar esses legados negativos. Ele nos ampara nas batalhas espirituais e existenciais que podem surgir dessa herança ancestral, permitindo que cortemos os laços de sofrimento e transformemos o karma familiar.

Assentamento da Lei e da Ordem Ancestral: Nossos ancestrais estabeleceram as primeiras leis, os primeiros costumes, as primeiras formas de organização social. Nkosi é o Nkisi que sustenta a Lei e a Ordem. Ao firmarmos a energia de Nkosi em nossos Axés e em nós mesmos, estamos ancorando a disciplina, a retidão e o respeito às tradições que foram legadas pelos Bakulu. Ele nos ajuda a manter a estrutura e a hierarquia da casa, que reflete a estrutura da nossa família ancestral.

Defensor dos Ancestrais e dos Descendentes: Nkosi não defende apenas os vivos, mas também os domínios dos Bakulu. Ele é o guardião das fronteiras, e isso inclui as fronteiras entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Ele assegura que os Bakulu sejam respeitados e que a comunicação com eles seja feita de forma correta e protegida. Da mesma forma, ele defende os descendentes das influências negativas que possam vir de espíritos desequilibrados ou de demandas direcionadas à linhagem.

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