A cultura Bantu e suas contribuições ancestrais para a música brasileira são vastas e profundamente enraizadas, formando a espinha dorsal de muitos dos nossos ritmos, instrumentos e expressões musicais.
musicalidade Bantu não é apenas um conjunto de sons, mas uma manifestação cultural e espiritual completa. Ela se caracteriza por:
- Ritmica e Polirritmia: A base de quase toda a música Bantu é o ritmo. A polirritmia, onde diferentes instrumentos tocam padrões rítmicos distintos que se encaixam e interagem, cria uma tapeçaria sonora complexa e envolvente. Essa característica é uma herança direta que percebemos em gêneros como o samba, onde a variedade de percussão cria camadas rítmicas intrincadas.
- Relação com a Espiritualidade: Para os Bantu, a música é um meio de comunicação com o divino, os ancestrais e as forças da natureza. Cantos, toques de tambor e danças são elementos essenciais em rituais religiosos, invocando e saudando as divindades (Nkisi, Inkices) e os espíritos. Essa ligação indissociável entre música e fé é a base das religiões de matriz africana no Brasil, como o Candomblé (especialmente as nações de Angola e Congo) e a Umbanda.
- Chamada e Resposta (Canto Responsorial): Uma estrutura vocal comum na música Bantu é o sistema de “chamada e resposta”, onde um solista entoa uma frase e um coro responde. Essa forma de canto promove a participação coletiva e a interação, sendo um traço marcante em diversos gêneros musicais brasileiros, do samba de roda aos cânticos de terreiro.
- Incorporação de Movimento e Dança: A música Bantu é inerentemente ligada à dança. Os ritmos dos tambores não são apenas para serem ouvidos, mas para serem sentidos e expressos corporalmente. A dança é uma forma de louvor, de contar histórias e de manifestar a energia dos ancestrais e divindades. Essa fusão de música e movimento é evidente na capoeira, no jongo, no samba e em outras danças brasileiras.
Instrumentos Musicais Ancestrais e Sua Presença no Brasil
A bagagem instrumental Bantu foi fundamental para moldar a sonoridade brasileira. Muitos de nossos instrumentos mais característicos têm suas raízes ou foram influenciados por tecnologias e práticas musicais africanas:
- Atabaques: Essenciais nos terreiros de Candomblé e Umbanda, os atabaques (tambores de diferentes tamanhos) são herdeiros diretos dos tambores africanos, como o Ngoma (termo Bantu para tambor ou música de tambor). Eles são a voz dos orixás e nkisi, marcando o ritmo das danças e cerimônias.
- Berimbau: O icônico instrumento da capoeira, o berimbau, tem sua ancestralidade ligada a arcos musicais angolanos como o Mbulumbumba ou Hungu. Sua sonoridade vibrante e percussiva guia a roda de capoeira, integrando música, luta e ancestralidade.
- Cuíca: Este tambor de fricção, conhecido como Pwita em algumas regiões de Angola, foi adaptado e se tornou um elemento distintivo do samba e de outras manifestações populares, com seu som expressivo e único.
- Caxixi: Pequeno cesto trançado com sementes, frequentemente utilizado com o berimbau, mas presente em diversas outras práticas rítmicas.
- Agogô: Instrumento de percussão metálico, com duas ou mais campânulas, também de origem africana, marcando ritmos em diferentes contextos musicais.
- Marimba: Um tipo de xilofone com lâminas de madeira e ressonadores de cabaça, a marimba é um instrumento ancestral presente em diversas culturas Bantu e que influenciou outros instrumentos de percussão no Brasil.
Contribuição para Gêneros Musicais Brasileiros
A presença Bantu é inegável em diversos gêneros musicais que são a cara do Brasil:
- Samba: A estrutura rítmica do samba, com sua polirritmia e a forte presença da percussão (atabaques, pandeiro, cuíca), é diretamente influenciada pelos ritmos Bantu, como o Semba (que significa “umbigada” e remete a uma dança angolana).
- Capoeira: A capoeira é uma expressão cultural completa onde música e movimento se entrelaçam. Os toques do berimbau e os cantos em coro são essenciais para o ritual e a energia da roda, tudo com fortes raízes Bantu.
- Jongo: Presente em regiões do Sudeste, o jongo é uma dança e canto de roda de origem Bantu, com tambores de tronco e letras que muitas vezes carregam mensagens codificadas, ligadas à resistência e à memória ancestral.
- Congado e Moçambique: Essas manifestações religiosas e culturais, populares em Minas Gerais, celebram a fé e a ancestralidade africana através de tambores, cantos e danças, com forte influência Bantu.
- Outros Ritmos: Elementos da musicalidade Bantu podem ser encontrados também em outros ritmos como o Maracatu, o Batuque, o Maxixe e até mesmo em manifestações folclóricas regionais, mostrando a capilaridade dessa herança.
Em síntese, a cultura e a musicalidade Bantu não apenas introduziram novos instrumentos e ritmos no Brasil, mas também incutiram uma forma particular de entender e fazer música: uma música que é coletiva, rítmica, ligada à espiritualidade e ao movimento, e que se tornou a base fundamental da nossa identidade sonora. É uma herança viva que continua a reverberar em cada batida de tambor e em cada melodia que compõe o rico mosaico musical brasileiro.